Qui, 19 de novembro de 2020, 08:15

Conheça a pesquisa sobre bibliotecas prisionais vencedora de prêmio nacional
Dissertação de mestranda da UFS abordou estímulo à leitura em bibliotecas prisionais
Trabalho foi desenvolvido no Prefem. Fotos: Divulgação/Paulo Fernades Júnior
Trabalho foi desenvolvido no Prefem. Fotos: Divulgação/Paulo Fernades Júnior

Abel Victor | Rádio UFS - Até janeiro de 2018, tudo levava a crer que Raquel Gonçalves iria enveredar pelo tema da biblioteca escolar no mestrado. Ela, além de se interessar pelo assunto, já atuava na área. Mas um convite da orientadora Germana Araujo mudou o curso da pesquisa realizada no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Informação da Universidade Federal de Sergipe (PPGCI/UFS).

Germana perguntou o que a então orientanda achava de realizar um trabalho no Presídio Feminino de Sergipe (Prefem), localizado em Nossa Senhora do Socorro, onde a docente colabora com o projeto Odara, que oferece capacitações às internas. Foi uma surpresa para Raquel que nunca tinha entrado em um presídio e cogitado o tema. Isso até a primeira visita, quando “se apaixonou pela causa” e observou que a biblioteca da unidade “ precisava ser utilizada, ser explorada”.

Foi, a partir daí, que surgiu a ideia de criar um projeto de intervenção para ampliar o uso da biblioteca do Prefem através de dinâmicas culturais, como clubes de leitura e exibição de curtas-metragens. Para isso, Gonçalves analisou o espaço e mapeou os temas que interessavam as internas.

“A gente via que tinha uma utilização da biblioteca, mas sempre com os mesmos livros. Lá, o empréstimo funciona da seguinte forma: você solicita o livro através de uma folha que vai passando de cela em cela e uma responsável pela biblioteca pega esses livros e leva até a essas internas. Então, assim, havia uma repetição de livros, sempre pedindo os mesmos livros, porque era por recomendação”, explica.

“Então, o nosso trabalho tinha o intuito de dinamizar o uso, que elas pudessem utilizar livros que nunca foram emprestados, sobre assuntos de temáticas sobre o feminismo, maternidade, violência doméstica, direito da mulher e vários outros assim que não eram explorados. Aí, através das dinâmicas culturais, a gente conseguiu fazer uma ponte entre curtas-metragens e os livros”, complementa.

+ Professor da UFS conquista Prêmio Werner Baer de Economia Regional


Projeto estimula leitura entre internas de presídio feminino, em Sergipe
Projeto estimula leitura entre internas de presídio feminino, em Sergipe

Após a exibição dos curtas-metragens e leituras de textos ligados a uma determinada temática, as “meninas”, como Raquel chama as detentas, eram convidadas a expressar o entendimento sobre o tema discutido nas rodas de conversa através de cartazes. O objetivo era mostrar como a leitura proporciona olhares críticos das próprias vivências. Ao longo dos 14 meses, mais de 100 mulheres participaram das atividades.

Depois do desenho e execução do projeto de pesquisa, Raquel transformou a experiência na dissertação de mestrado, que apresentou em julho de 2019. Mas a finalização do ciclo não a impediu de acompanhar a ação de intervenção, semanalmente, até dezembro do ano passado, quando precisou mudar de estado.

Para a pesquisadora, uma biblioteca que se limita à armazenagem de livros é apenas um espaço com livros. Ela acredita que é preciso realizar atividades de mediação dos recursos informacionais a partir de ações. Além disso, ela pontua que a biblioteca em um presídio tem uma parcela significativa de atuação no processo de ressocialização.

“A obtenção das informações e dos seus direitos e deveres , adquiridos através da leitura, pode ajudar o indivíduo (no processo de apropriação) de várias outras temáticas que possam ser benéficas para o seu entendimento de mundo, de cultura”, afirma.

Com a dissertação, Raquel conquistou o primeiro lugar na categoria Mestrado Profissional da edição 2020 do Prêmio da Associação de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação (Ancib).

“Eu acho que o que mais me deixa feliz é, antes de qualquer premiação, é que o trabalho deu resultado, que o trabalho continua fazendo que a biblioteca floresça dentro dessa unidade, que as meninas estão utilizando os livros e que tem uma agente penitenciária responsável por cuidar da biblioteca, não só cuidar, mas também fazer todos os processos de mediação e discussão de livros”, destaca.

+ Departamento de Fisioterapia da UFS oferece teleatendimento


Professora Germana Araujo e Raquel Gonçalves durante atividade no Prefem
Professora Germana Araujo e Raquel Gonçalves durante atividade no Prefem

A professora do Departamento de Artes Visuais e Design e do PPGCI, Germana Araujo, afirma que a congruência de linguagens dos campos do design e da biblioteconomia e a possibilidade de replicar a experiência em outros ambientes similares foram elementos-chave para a classificação de Raquel no prêmio.

“Então, acredito que o que foi determinante foi o produto. Um produto com resultados verificáveis. Na realidade, não era simplesmente um guia que sugeria como trabalhar com essas mulheres, as internas, mas que teve a chance de fazer o processo do início ao fim e testar a eficácia do que estava sendo proposto.”.

Germana aponta que tem sido crescente a pauta social nos direcionamentos dos projetos de biblioteconomia, mas o campo “ainda não está firmado”. O trabalho sobre o estímulo à leitura no presídio feminino surgiu, explica a professora, a partir do entendimento de que a universidade, por ser pública, deve oferecer devolutivas à sociedade.

“Enfim, a nossa grande intenção e projeção de resultado desse projeto era, de fato, fazer que aquele ambiente da biblioteca pudesse ser um ambiente de frequência na vida daquelas mulheres, que elas entendessem que é um ambiente de leitura, mas também de diálogo, de leitura, mas também de descobertas, de leitura, mas também de processos de conscientização”, ressalta a professora.

A coordenadora do PPGCI, professora Martha Suzana Cabral Nunes, afirma que a conquista tem um significado muito importante por ser a primeira participação do programa de pós-graduação da UFS em uma premiação nacional da área. “Nosso curso de mestrado profissional em gestão da informação e do conhecimento tem a perspectiva da intervenção e da elaboração do produto como elementos essenciais na condução de todos os trabalhos”, salienta.

“E o impacto social do trabalho da Raquel é muito grande, pois visa promover a leitura na população carcerária feminina sergipana. Um projeto orientado pela professora Germana Araujo, que teve continuidade no presídio feminino, mesmo depois da sua conclusão. Eu posso dizer que esse prêmio representa um salto qualitativo na nossa produção científica e temos a certeza que impactará positivamente na avaliação quadrienal do PPGCI-UFS”, finaliza.


Atualizado em: Qui, 19 de novembro de 2020, 08:54

Notícias Relacionadas
Notícias UFS